[Continuação do conto "Vírgulas do Destino: Meandros da Vida", Parte 1]
Encontrei o rapaz a acender um pauzinho de incenso. Dentro da tenda, o ambiente era intimista, mas acolhedor. Algumas velas pequeninas ardiam aqui e ali. Uma música suava ecoava pelo espaço. O rapaz sorriu-me enquanto se servia de um chá e disse:
- Boa noite! Por favor, senta-te!
Assenti com a cabeça, murmurando um tímido “boa noite”. Pousei
as minhas coisas. Estava um bocadinho nervoso. O rapaz prosseguiu e perguntou:
- Então, como te chamas e o que te traz até cá?
Sorri um pouco e respondi:
- Eu sou o Caim. Estou de visita a Portugal. Ao passar por
aqui, apercebi-me que estava a decorrer uma noite especial e decidi entrar.
O rapaz sorriu-me e assentiu com a cabeça. Era da minha
altura. Moreno, ele tinha os cabelos castanhos escuros, pelos ombros. Tinha as
famosas madeixas californianas que já ouvira falar. As dele eram em tons
férreos. Embora nunca tivesse visto um rapaz com este tipo de madeixas, gostei
do resultado. Assentavam-lhe bem. Uma argola na orelha esquerda dava-lhe um certo ar rebelde. Os seus olhos eram castanhos. Transmitiam paz
e tranquilidade. O seu sorriso era simpático e bem disposto.
Estava vestido com
uma camisa preta, aberta, mostrando uma t-shirt laranja. Ao peito ele trazia um
pendente com uma clave de sol. Tal como eu, ele parecia gostar de vestir preto,
pois as calças eram pretas e as sapatilhas dele também [embora os atacadores
forem em tom laranja fluorescente].
- Então Caim, o que te traz até nós? – perguntou ele.
- Bem... – comecei eu – Eu queria perguntar ao... – Como é
que te chamas? – inquiri, levemente corado.
Ele riu-se divertido e fazendo uma pequena vénia respondeu:
- Peço desculpa, nem me apresentei. Eu sou o João, muito
prazer em conhecer-te!
Cumprimentei-o e sorri.
- João, eu gostava de saber umas coisas nas cartas, se puder
ser...
Ele assentiu com a cabeça, sorrindo. Pegou no baralho e
virando-se para mim, explicou:
- Toma, entrego-te o baralho. Vais pensar numa pergunta que
queiras fazer, baralhas as cartas e quando achares que estás pronto, partes o
baralho. Eu vou recolher as cartas e veremos juntos a resposta à tua pergunta,
sim?
- Ok! – respondi.
Peguei no baralho. A princípio comecei a ver as figuras. Era
uma baralho muito bonito. Diferente dos que eu conhecia. Comecei a pensar no
que haveria de perguntar. Havia algo que eu queria saber, mas... não sei se
tinha coragem de perguntar...
- “Bom, vamos lá...” – pensei.
Baralhei as cartas.
Durante algum tempo, João limitou-se a observar-me em
silêncio, concentrado. Quando senti que estava bem, parei. Parti o baralho em 3
partes. Ele recolheu as cartas e sorrindo para mim, perguntou:
- Qual é a pergunta? O que pretendes saber?
Sorri timidamente e baixei os olhos.
- Queria saber...se fiz bem em vir passar uns dias a
Portugal... – respondi num sussurro.
João sorriu, levemente surpreso.
- “Não deve ser a pergunta típica que lhe fazem...mas para mim
é uma pergunta importante...” – pensei eu.
Ele pegou nas cartas e começou a lançá-las na mesa. A sua
expressão, ao longo da tiragem, foi-se alterando. O seu sorriso, sempre bonito,
esmoreceu-se. O seu olhar escureceu. Os seus olhos ficaram brilhantes e com uma
dor intensa. Senti que ele tinha visto algo que o havia perturbado bastante.
Baixei o olhar.
Aguardei.
Ao fim de alguns momentos, João olhou para mim e começou a
leitura:
- Caim, a tua viagem até Portugal foi bastante ponderada. Tu
não querias vir. Querias continuar no teu cantinho, no escuro. Foram os teus
familiares e amigos próximos que insistiram para que viesses. Acredita que,
depois do que aconteceu ao rapaz de cabelos escuros ou pretos, foi sem dúvida,
a melhor coisa que fizeste.
Olhei-o nos olhos. Seria possível?
João prosseguiu, apontando para algumas cartas:
- Este rapaz era muito importante para ti. Ele representava
a tua Felicidade. Conhecia-te como ninguém mais te conhecia...
Comecei a chorar. Percebi de imediato que o João tinha
receio de dizer tudo o que vira nas cartas, que estava a escolher as palavras a
dedo para não me magoar, mas eu tinha a certeza que ele já percebera tudo. Em
silêncio, pegou num pacote de lenços e entregou-me. Foi buscar uma chávena de
chá, encheu-a e passou-me.
- Toma. É um chá de rosas que a Mariana, a dona do bar,
costuma preparar para mim. Vai fazer-te bem. – respondeu, sorrindo ternurento.
Peguei na chávena.
Levei à boca e provei. O sabor era
agradável.
Tirei um lenço e assoei-me.
Peguei na chávena. Bebi mais uns goles.
Ele olhava para mim.
Peguei na chávena. Bebi mais uns goles.
Ele olhava para mim.
Pousei a chávena.
Ia fazer-me bem desabafar.
- Como foi que aconteceu? – perguntou João, num sussurro.
Não aguentei mais.
Abracei-me a ele a chorar. Ele abraçou-se
a mim com muito carinho, confortando-me. As lágrimas que eu mantivera cativas
cá dentro, finalmente encontraram um ombro onde as pude libertar...
- Está tudo bem fofo...chora à vontade... – sussurrou João.
Ele começou a fazer-me festinhas no cabelo e a aconchegar-me
contra o seu peito. Eu sentia o seu calor e o seu carinho. Sentia-me bem e
protegido. Deixei-me estar assim por algum tempo. João chorava em silêncio.
Sentia os seus soluços.
Olhei-o nos olhos.
João afastou-se um pouco de mim,
pegou num lenço e disse:
- Eu peço-te desculpa...não costumo reagir assim...
Abracei-o novamente.
- Não faz mal. Abraça-me, por favor... – sussurrei.
Ele abraçou-me e suspirou:
- Há muito tempo que não encontrava uma pessoa como tu,
sabes?
Ganhei coragem e comecei a falar:
- O que tu viste está certo. O rapaz de cabelos pretos era o
Santiago. O meu namorado.
Ele... – recomecei a chorar.
- Ele morreu num acidente, não foi? Num estúpido
acidente....causado por uma mulher... – murmurou João.
Suspirei.
- É verdade. O Santiago tinha-me levado ao instituto onde trabalho. A nossa cidade tem muito trânsito, pelo que fomos de mota. Depois de me deixar, ele foi para o trabalho dele. Estava parado num semáforo, quando foi abalroado por uma condutora. Ela vinha distraída a falar ao telemóvel e quando se apercebeu que o semáforo estava vermelho, travou a fundo, mas foi tarde de mais...
João permanecia em silêncio. Lágrimas rolavam pelo seu
rosto.
Prossegui.
Prossegui.
- Santiago era um rapaz lindo. Magro, mais alto do que nós,
cabelo preto, liso,”emo style”, estás a ver? Olhos azuis...ele era muito
giro...e tinha cá um sorriso...
- Pois, consigo imaginar... - respondeu ele.
- Quando ela o abalroou, Santiago, que não levava o
capacete na cabeça porque “eu adoro sentir o vento a roçar nos meus cabelos!” –
dizia-me ele muitas vezes... foi projectado vários metros. Sofreu vários
traumatismos e entrou em coma. Os médicos disseram que se ele algum dia
recuperasse, iria ficar com lesões permanentes e viveria dependente de outras
pessoas o resto da vida. Acabou por morrer há 9 meses atrás... – rematei.
João serviu-me um pouco mais de chá.
Não parara de chorar, embora me apercebesse que ele estava a fazer todos os possíveis para se controlar. Intrigado, perguntei:
Não parara de chorar, embora me apercebesse que ele estava a fazer todos os possíveis para se controlar. Intrigado, perguntei:
- Tu és mais sensível do que eu podia imaginar, João. Algum
motivo para seres assim? - inquiri,
fazendo-lhe um afago.
Ele fungou e tirando um lenço para se assoar e limpar o
rosto, disse:
- Sabes Caim... A tua história é parecida com a minha. Conheci o Angél por mero acaso, um Acaso do Destino, durante um intercâmbio de estudantes. Nós começámos a falar, a conviver e depressa nos apercebemos que quanto mais tempo passávamos juntos, mais queríamos passar! Sentíamos muito a falta um do outro.
O Angél era um fofinho. Muito doce e terno. Mais baixinho que nós, [dava-me pelos ombros], olhos azuis, pele clarinha e um ar muito feminino. Aliás, a primeira vez que nos vimos e me dirigi a ele, pensei que era uma rapariga!
João riu-se, divertido.
- Felizmente, era um rapaz! E que rapaz! – exclamou, piscando-me o olho.
Ri-me docemente.
João falava com muita ternura e os seus olhos estavam muito brilhantes. Senti que também ele precisava de desabafar.
Aguardei.
- Eu e o Ángel tínhamos uma relação muito cúmplice.
Namorámos durante um ano e meio quando ele me pediu em casamento. Íamos fazer 4
meses de noivado, quando ele foi atropelado ao atravessar numa passadeira.
O condutor estava cheio de pressa e ultrapassou vários carros. Ao
aperceber-se...o impacto foi muito grande. O carro foi contra ele e atingiu-o
em cheio. Ele rolou para cima do carro, “voou” literalmente alguns metros e
depois caiu, ainda meio consciente. Segundo testemunhas e os socorristas, ele
só murmurava:
- “Oka-chi...Oka-chi...”
- Oka-chi? – perguntei.
- Eu e o Ángel andamos a estudar japonês durante algum tempo. Ele começou a chamar-me Oka-chi*...ele era o meu Kit-chi*... – respondeu João.
* [Oka-chi significa "lobinho"; Kit-chi significa "raposinho" - Nota do Autor].
- Awww! Que fofinhos! - suspirei. - Mas...espera lá! Então...ele estava a chamar por ti! – exclamei.
João assentiu com a cabeça.
- É verdade...o
Kit-chi estava a chamar por mim. Quando me contactaram, fui logo para o
hospital, mas ele sofreu uma hemorragia interna e uma paragem cardíaca. Já não
chegou vivo ao hospital. – murmurou João.
Fiquei a chorar em silêncio. Abracei-me ao João, que chorava
também. Perder alguém assim, era terrível...eu sabia bem a dor que ele estava a
sentir.
Ficámos assim por algum tempo, em silêncio.
Ficámos assim por algum tempo, em silêncio.
- Bom, queres perguntar mais alguma coisa às cartas? –
perguntou ele, minutos depois, enxaguando os olhos e fazendo um pequeno sorriso.
Pensei. O que haveria de perguntar?
- Está bem. Gostava de saber como vão correr os próximos dias
cá em Portugal, antes de voltar para casa...
- Muito bem! Vamos ver isso então!
Voltei a baralhar as cartas, parti em 3 partes. João
recolheu-as e começou a dispô-las na mesa.
- Hummm! Sim senhor! - sussurrou ele.
- Então? O que dizem as cartas? - perguntei, curioso.
Com um sorriso misterioso, João pigarreou e começou a
cantar:
Uma viagem estás a fazer,
Para uma perda superar.
O Destino fez-te conhecer
Aquele que te vai ajudar.
Novos amigos vais fazer,
A tua aventura vai continuar.
Uma raposa vais conhecer,
Um rapaz transtornado, vai-te guiar.
Quando o tempo aquecer,
Num jardim à beira rio, a raposa vais reencontrar.
Algo especial vai então acontecer:
Mas, no fim do dia, o encanto vai-se quebrar...
Eu fiquei surpreendido!
- Wow! Tu és sempre assim?!? – perguntei espantado.
Ele sorriu, corando um pouco.
- Não, nem por isso... – respondeu.
Corei também. Sorri para ele e disse:
- Obrigado! A sério! Gostei! O passeio a Lisboa vai ser uma
viagem interessante! – concluí.
João sorriu e assentiu com a cabeça:
- Sem dúvida que sim! Vais gostar, embora vás sentir a falta
de algo...
Suspirei feliz.
Sentia-me bem. Muito bem mesmo. A conversa com o João estava a ser muito boa.
- “Bem que gostava de a prolongar...” – pensava eu, quando a Mariana apareceu.
Sentia-me bem. Muito bem mesmo. A conversa com o João estava a ser muito boa.
- “Bem que gostava de a prolongar...” – pensava eu, quando a Mariana apareceu.
- João, está quase na hora de fechar! Espero que tenha
corrido tudo bem!
Ele sorriu e disse:
- Correu sim, muito bem mesmo! – exclamou, olhando para mim.
Mariana voltou as costas a sorrir e João começou a arrumar as
suas coisas. Virei-me para ele e perguntei:
- João, gostas de cantar? Parece-me que tens jeito para
isso! – disse, piscando-lhe o olho.
- Por acaso...gosto sim, alivia-me a alma e aquece-me o
coração... – respondeu ele.
- Então desafio-te a irmos ali para o centro da praça e
cantarmos uma canção...podia ser uma canção em homenagem ao Santiago e ao Ángel.
Que me dizes?
João olhou-me sério.
- Que interessante! Soa-me bem! Vamos lá! Mas
primeiro...
- Sim? - inquiri.
- Tenho de ir à casa de banho! Estou apertadinho! Não fui a
noite toda...! – sussurrou ele, a rir-se.
Ri-me também e respondi:
- Eu também! Posso ir contigo?
- Claro! Anda daí! - respondeu João, com um sorriso.
Lá fomos os dois à casa de banho. Sentia-me cada vez melhor
e mais confortável na companhia dele. Estava feliz como há muito não me sentia.
E ele também. Com um sorriso cúmplice, fizemos o que íamos fazer [“possa, que
alívio!” – dissemos os dois ao mesmo tempo] e quando fomos lavar as mãos,
começamos a brincar um com o outro, jogando água, na brincadeira. Abracei-me a
ele e preparava-me para o beijar, quando um rapaz entra na casa de banho...
- Ups!!! – dissemos os dois, começando a rir e a tossir ao
mesmo tempo, enquanto saíamos da casa de banho, corados que nem dois tomates.
Fomos buscar as nossas coisas e depois de nos despedirmos da
Mariana e das restantes funcionárias, seguimos para a praça.
Chegados lá...
Chegados lá...
- Que canção vamos cantar? – perguntou-me ele.
- Que tal esta? Conheces? – respondi, cantando um pouco.
- Uau! É linda! Conheço sim! – respondeu João,
com um grande sorriso.
Peguei no estojo e tirei de lá o meu baixo. Virei-me para
ele e disse:
- Quando quiseres...
- Aos 3, tim? – sussurrou ele.
- 1,2,3!!! – gritamos os dois a rir.
E começamos a cantar:
E começamos a cantar:
O vento que brilha com sete cores
Soprará, anunciando um novo dia.
Eu cantarei novamente esta canção:
A canção triste, que me faz sempre chorar...
Eles estão a seguir um atalho, rumo ao Paraíso!
No Paraíso dos Sete Mares
As nossas vidas renascerão
Para que eu possa comunicar o meu amor, depois da noite tempestuosa!
Eu cantarei esta melodia
Que foi criada para mim
No dia em que tu partiste daqui
Para que tu não te esqueças de mim
Eu cantarei esta melodia
Que foi criada para mim
No dia em que tu partiste daqui
Para que tu não te esqueças de mim
As nuvens desaparecem lentamente,
Revelando aquele belo arco-íris!
As estrelas são como pérolas:
Começam a libertar uma luz forte!
Eu posso ouvir um assobio, vindo dos céus do sul!
É verdade!
Pude escutar alguém a chamar-me:
Agora é tempo de crescer, de amadurecer!
Uma aventura, ir ao encontro de um milagre!
Todos nós vamos numa jornada, enquanto abraçamos os desejos dos nossos corações!
Todos nós vamos numa jornada, enquanto abraçamos os desejos dos nossos corações!
A fantasia de uma noite com estrelas cadentes,
Transbordando lágrimas, com uma oração,
Ilumina um futuro desconhecido a todos nós!
Transbordando lágrimas, com uma oração,
Ilumina um futuro desconhecido a todos nós!
Entramos numa aventura
Cheia de milagres em que eu e tu
Descobrimos algo
Ao qual algumas pessoas chamam de Amor.
Sinto que é uma fantasia
Como as estrelas olham para nós!
Um futuro que ainda não existe
Mas eu sei que conseguirei alcançar!
Cheia de milagres em que eu e tu
Descobrimos algo
Ao qual algumas pessoas chamam de Amor.
Sinto que é uma fantasia
Como as estrelas olham para nós!
Um futuro que ainda não existe
Mas eu sei que conseguirei alcançar!
Quando terminamos, uma multidão rodeava-nos.
Olhei para o João, que estava a chorar, tal como eu.
Sorrimos um para o outro.
Toda a gente bateu palmas, muitas pessoas choravam também.
Abraçamo-nos e olhamos para o céu, sussurrando:
Olhei para o João, que estava a chorar, tal como eu.
Sorrimos um para o outro.
Toda a gente bateu palmas, muitas pessoas choravam também.
Abraçamo-nos e olhamos para o céu, sussurrando:
- “Ángel,
Santiago, nunca vos
esqueceremos...obrigado por tudo!”
Uma estrela cadente cruzou os céus.
Eu e o João sorrimos um para o outro.
Cúmplices, beijamo-nos finalmente.
Cúmplices, beijamo-nos finalmente.
Ouvimos uma enorme ovação de todas as pessoas que ali estavam.
Elas eram as testemunhas do nosso renascimento.
Elas eram as testemunhas do nosso renascimento.
[Continua]



