Sábado, 15 de Junho de 2013

Vírgulas do Destino: Meandros da Vida - Parte 2

[Continuação do conto "Vírgulas do Destino: Meandros da Vida", Parte 1]

Encontrei o rapaz a acender um pauzinho de incenso. Dentro da tenda, o ambiente era intimista, mas acolhedor. Algumas velas pequeninas ardiam aqui e ali. Uma música suava ecoava pelo espaço. O rapaz sorriu-me enquanto se servia de um chá e disse:

- Boa noite! Por favor, senta-te! 

Assenti com a cabeça, murmurando um tímido “boa noite”. Pousei as minhas coisas. Estava um bocadinho nervoso. O rapaz prosseguiu e perguntou:

- Então, como te chamas e o que te traz até cá?

Sorri um pouco e respondi:

- Eu sou o Caim. Estou de visita a Portugal. Ao passar por aqui, apercebi-me que estava a decorrer uma noite especial e decidi entrar.

O rapaz sorriu-me e assentiu com a cabeça. Era da minha altura. Moreno, ele tinha os cabelos castanhos escuros, pelos ombros. Tinha as famosas madeixas californianas que já ouvira falar. As dele eram em tons férreos. Embora nunca tivesse visto um rapaz com este tipo de madeixas, gostei do resultado. Assentavam-lhe bem. Uma argola na orelha esquerda dava-lhe um certo ar rebelde. Os seus olhos eram castanhos. Transmitiam paz e tranquilidade. O seu sorriso era simpático e bem disposto. 

Estava vestido com uma camisa preta, aberta, mostrando uma t-shirt laranja. Ao peito ele trazia um pendente com uma clave de sol. Tal como eu, ele parecia gostar de vestir preto, pois as calças eram pretas e as sapatilhas dele também [embora os atacadores forem em tom laranja fluorescente].

- Então Caim, o que te traz até nós? – perguntou ele.

- Bem... – comecei eu – Eu queria perguntar ao... – Como é que te chamas? – inquiri, levemente corado.

Ele riu-se divertido e fazendo uma pequena vénia respondeu:

- Peço desculpa, nem me apresentei. Eu sou o João, muito prazer em conhecer-te!

Cumprimentei-o e sorri.

- João, eu gostava de saber umas coisas nas cartas, se puder ser...

Ele assentiu com a cabeça, sorrindo. Pegou no baralho e virando-se para mim, explicou:

- Toma, entrego-te o baralho. Vais pensar numa pergunta que queiras fazer, baralhas as cartas e quando achares que estás pronto, partes o baralho. Eu vou recolher as cartas e veremos juntos a resposta à tua pergunta, sim?

- Ok! – respondi.

Peguei no baralho. A princípio comecei a ver as figuras. Era uma baralho muito bonito. Diferente dos que eu conhecia. Comecei a pensar no que haveria de perguntar. Havia algo que eu queria saber, mas... não sei se tinha coragem de perguntar...

- “Bom, vamos lá...” – pensei.

Baralhei as cartas. 

Durante algum tempo, João limitou-se a observar-me em silêncio, concentrado. Quando senti que estava bem, parei. Parti o baralho em 3 partes. Ele recolheu as cartas e sorrindo para mim, perguntou:

- Qual é a pergunta? O que pretendes saber?

Sorri timidamente e baixei os olhos.

- Queria saber...se fiz bem em vir passar uns dias a Portugal... – respondi num sussurro.

João sorriu, levemente surpreso. 

- “Não deve ser a pergunta típica que lhe fazem...mas para mim é uma pergunta importante...” – pensei eu.

Ele pegou nas cartas e começou a lançá-las na mesa. A sua expressão, ao longo da tiragem, foi-se alterando. O seu sorriso, sempre bonito, esmoreceu-se. O seu olhar escureceu. Os seus olhos ficaram brilhantes e com uma dor intensa. Senti que ele tinha visto algo que o havia perturbado bastante.

Baixei o olhar. 

Aguardei. 

Ao fim de alguns momentos, João olhou para mim e começou a leitura:

- Caim, a tua viagem até Portugal foi bastante ponderada. Tu não querias vir. Querias continuar no teu cantinho, no escuro. Foram os teus familiares e amigos próximos que insistiram para que viesses. Acredita que, depois do que aconteceu ao rapaz de cabelos escuros ou pretos, foi sem dúvida, a melhor coisa que fizeste.

Olhei-o nos olhos. Seria possível? 

João prosseguiu, apontando para algumas cartas:

- Este rapaz era muito importante para ti. Ele representava a tua Felicidade. Conhecia-te como ninguém mais te conhecia...

Comecei a chorar. Percebi de imediato que o João tinha receio de dizer tudo o que vira nas cartas, que estava a escolher as palavras a dedo para não me magoar, mas eu tinha a certeza que ele já percebera tudo. Em silêncio, pegou num pacote de lenços e entregou-me. Foi buscar uma chávena de chá, encheu-a e passou-me.

- Toma. É um chá de rosas que a Mariana, a dona do bar, costuma preparar para mim. Vai fazer-te bem. – respondeu, sorrindo ternurento.

Peguei na chávena. 

Levei à boca e provei. O sabor era agradável. 

Tirei um lenço e assoei-me.

Peguei na chávena. Bebi mais uns goles. 

Ele olhava para mim. 

Pousei a chávena. 

Ia fazer-me bem desabafar. 
       
- Como foi que aconteceu? – perguntou João, num sussurro.

Não aguentei mais. 

Abracei-me a ele a chorar. Ele abraçou-se a mim com muito carinho, confortando-me. As lágrimas que eu mantivera cativas cá dentro, finalmente encontraram um ombro onde as pude libertar...

- Está tudo bem fofo...chora à vontade... – sussurrou João.

Ele começou a fazer-me festinhas no cabelo e a aconchegar-me contra o seu peito. Eu sentia o seu calor e o seu carinho. Sentia-me bem e protegido. Deixei-me estar assim por algum tempo. João chorava em silêncio. Sentia os seus soluços. 

Olhei-o nos olhos. 

João afastou-se um pouco de mim, pegou num lenço e disse:

- Eu peço-te desculpa...não costumo reagir assim...

Abracei-o novamente.

- Não faz mal. Abraça-me, por favor...  – sussurrei.

Ele abraçou-me e suspirou:

- Há muito tempo que não encontrava uma pessoa como tu, sabes? 

Ganhei coragem e comecei a falar:

- O que tu viste está certo. O rapaz de cabelos pretos era o Santiago. O meu namorado. Ele... – recomecei a chorar.





- Ele morreu num acidente, não foi? Num estúpido acidente....causado por uma mulher... – murmurou João.

Suspirei.

- É verdade. O Santiago tinha-me levado ao instituto onde trabalho. A nossa cidade tem muito trânsito, pelo que fomos de mota. Depois de me deixar, ele foi para o trabalho dele. Estava parado num semáforo, quando foi abalroado por uma condutora. Ela vinha distraída a falar ao telemóvel e quando se apercebeu que o semáforo estava vermelho, travou a fundo, mas foi tarde de mais...  

João permanecia em silêncio. Lágrimas rolavam pelo seu rosto.

Prossegui.

- Santiago era um rapaz lindo. Magro, mais alto do que nós, cabelo preto, liso,”emo style”, estás a ver? Olhos azuis...ele era muito giro...e tinha cá um sorriso...

- Pois, consigo imaginar... - respondeu ele.

- Quando ela o abalroou, Santiago, que não levava o capacete na cabeça porque “eu adoro sentir o vento a roçar nos meus cabelos!” – dizia-me ele muitas vezes... foi projectado vários metros. Sofreu vários traumatismos e entrou em coma. Os médicos disseram que se ele algum dia recuperasse, iria ficar com lesões permanentes e viveria dependente de outras pessoas o resto da vida. Acabou por morrer há 9 meses atrás... – rematei.

João serviu-me um pouco mais de chá.

Não parara de chorar, embora me apercebesse que ele estava a fazer todos os possíveis para se controlar. Intrigado, perguntei:

- Tu és mais sensível do que eu podia imaginar, João. Algum motivo para seres assim?  - inquiri, fazendo-lhe um afago.

Ele fungou e tirando um lenço para se assoar e limpar o rosto, disse:

- Sabes Caim... A tua história é parecida com a minha. Conheci o Angél por mero acaso, um Acaso do Destino, durante um intercâmbio de estudantes. Nós começámos a falar, a conviver e depressa nos apercebemos que quanto mais tempo passávamos juntos, mais queríamos passar! Sentíamos muito a falta um do outro.

O Angél era um fofinho. Muito doce e terno. Mais baixinho que nós, [dava-me pelos ombros], olhos azuis, pele clarinha e um ar muito feminino. Aliás, a primeira vez que nos vimos e me dirigi a ele, pensei que era uma rapariga!

João riu-se, divertido.

- Felizmente, era um rapaz! E que rapaz! – exclamou, piscando-me o olho.

Ri-me docemente.

João falava com muita ternura e os seus olhos estavam muito brilhantes. Senti que também ele precisava de desabafar.

Aguardei.

- Eu e o Ángel tínhamos uma relação muito cúmplice. Namorámos durante um ano e meio quando ele me pediu em casamento. Íamos fazer 4 meses de noivado, quando ele foi atropelado ao atravessar numa passadeira. O condutor estava cheio de pressa e ultrapassou vários carros. Ao aperceber-se...o impacto foi muito grande. O carro foi contra ele e atingiu-o em cheio. Ele rolou para cima do carro, “voou” literalmente alguns metros e depois caiu, ainda meio consciente. Segundo testemunhas e os socorristas, ele só murmurava:

- “Oka-chi...Oka-chi...”

- Oka-chi? – perguntei.

- Eu e o Ángel andamos a estudar japonês durante algum tempo. Ele começou a chamar-me Oka-chi*...ele era o meu Kit-chi*... – respondeu João. 

* [Oka-chi significa "lobinho"; Kit-chi significa "raposinho" - Nota do Autor]. 

- Awww! Que fofinhos!  - suspirei. - Mas...espera lá! Então...ele estava a chamar por ti! – exclamei.

João assentiu com a cabeça.

 - É verdade...o Kit-chi estava a chamar por mim. Quando me contactaram, fui logo para o hospital, mas ele sofreu uma hemorragia interna e uma paragem cardíaca. Já não chegou vivo ao hospital. – murmurou João.

Fiquei a chorar em silêncio. Abracei-me ao João, que chorava também. Perder alguém assim, era terrível...eu sabia bem a dor que ele estava a sentir.

Ficámos assim por algum tempo, em silêncio.

- Bom, queres perguntar mais alguma coisa às cartas? – perguntou ele, minutos depois, enxaguando os olhos e fazendo um pequeno sorriso.

Pensei. O que haveria de perguntar?

- Está bem. Gostava de saber como vão correr os próximos dias cá em Portugal, antes de voltar para casa...

- Muito bem! Vamos ver isso então!

Voltei a baralhar as cartas, parti em 3 partes. João recolheu-as e começou a dispô-las na mesa.

- Hummm! Sim senhor! - sussurrou ele.

- Então? O que dizem as cartas? - perguntei, curioso.

Com um sorriso misterioso, João pigarreou e começou a cantar:

Uma viagem estás a fazer,
Para uma perda superar.
O Destino fez-te conhecer
Aquele que te vai ajudar.

Novos amigos vais fazer,
A tua aventura vai continuar.
Uma raposa vais conhecer,
Um rapaz transtornado, vai-te guiar.

Quando o tempo aquecer,
Num jardim à beira rio, a raposa vais reencontrar.
Algo especial vai então acontecer:
Mas, no fim do dia, o encanto vai-se quebrar...

Eu fiquei surpreendido!

- Wow! Tu és sempre assim?!? – perguntei espantado.

Ele sorriu, corando um pouco.

- Não, nem por isso... – respondeu.

Corei também. Sorri para ele e disse:

- Obrigado! A sério! Gostei! O passeio a Lisboa vai ser uma viagem interessante! – concluí.

João sorriu e assentiu com a cabeça:

- Sem dúvida que sim! Vais gostar, embora vás sentir a falta de algo...

Suspirei feliz.

Sentia-me bem. Muito bem mesmo. A conversa com o João estava a ser muito boa.

- “Bem que gostava de a prolongar...” – pensava eu, quando a Mariana apareceu.

- João, está quase na hora de fechar! Espero que tenha corrido tudo bem!

Ele sorriu e disse:

- Correu sim, muito bem mesmo! – exclamou, olhando para mim.

Mariana voltou as costas a sorrir e João começou a arrumar as suas coisas. Virei-me para ele e perguntei:

- João, gostas de cantar? Parece-me que tens jeito para isso! – disse, piscando-lhe o olho.

- Por acaso...gosto sim, alivia-me a alma e aquece-me o coração... – respondeu ele.

- Então desafio-te a irmos ali para o centro da praça e cantarmos uma canção...podia ser uma canção em homenagem ao Santiago e ao Ángel. Que me dizes?

João olhou-me sério.

- Que interessante! Soa-me bem! Vamos lá! Mas primeiro...

- Sim? - inquiri.

- Tenho de ir à casa de banho! Estou apertadinho! Não fui a noite toda...! – sussurrou ele, a rir-se.
 
Ri-me também e respondi:
 
- Eu também! Posso ir contigo?

- Claro! Anda daí! - respondeu João, com um sorriso.

Lá fomos os dois à casa de banho. Sentia-me cada vez melhor e mais confortável na companhia dele. Estava feliz como há muito não me sentia. E ele também. Com um sorriso cúmplice, fizemos o que íamos fazer [“possa, que alívio!” – dissemos os dois ao mesmo tempo] e quando fomos lavar as mãos, começamos a brincar um com o outro, jogando água, na brincadeira. Abracei-me a ele e preparava-me para o beijar, quando um rapaz entra na casa de banho...

- Ups!!! – dissemos os dois, começando a rir e a tossir ao mesmo tempo, enquanto saíamos da casa de banho, corados que nem dois tomates.

Fomos buscar as nossas coisas e depois de nos despedirmos da Mariana e das restantes funcionárias, seguimos para a praça.

Chegados lá...

- Que canção vamos cantar? – perguntou-me ele.

- Que tal esta? Conheces? – respondi, cantando um pouco.

- Uau! É linda! Conheço sim! – respondeu João, com um grande sorriso.

Peguei no estojo e tirei de lá o meu baixo. Virei-me para ele e disse:

- Quando quiseres...

- Aos 3, tim? – sussurrou ele.      

- 1,2,3!!! – gritamos os dois a rir. 

E começamos a cantar:




O vento que brilha com sete cores
Soprará, anunciando um novo dia.
Eu cantarei novamente esta canção:
A canção triste, que me faz sempre chorar...

Estes pássaros que voam para o céu oriental,
Eles estão a seguir um atalho, rumo ao Paraíso!

No Paraíso dos Sete Mares
As nossas vidas renascerão 
Para que eu possa comunicar o meu amor, depois da noite tempestuosa! 
Eu cantarei esta melodia
Que foi criada para mim
No dia em que tu partiste daqui
Para que tu não te esqueças de mim

As nuvens desaparecem lentamente, 

Revelando aquele belo arco-íris!  
As estrelas são como pérolas:
Começam a libertar uma luz forte!

Eu posso ouvir um assobio, vindo dos céus do sul!
É verdade!
 
Pude escutar alguém a chamar-me: 
Agora é tempo de crescer, de amadurecer! 

Uma aventura, ir ao encontro de um milagre!
Todos nós vamos numa jornada,
enquanto abraçamos os desejos dos nossos corações!
A fantasia de uma noite com estrelas cadentes,
Transbordando lágrimas, com uma oração,
Ilumina um futuro desconhecido a todos nós! 
  
Entramos numa aventura
Cheia de milagres em que eu e tu
Descobrimos algo
Ao qual algumas pessoas chamam de Amor.

Sinto que é uma fantasia
Como as estrelas olham para nós!
Um futuro que ainda não existe
Mas eu sei que conseguirei alcançar!

Quando terminamos, uma multidão rodeava-nos. 

Olhei para o João, que estava a chorar, tal como eu. 

Sorrimos um para o outro. 

Toda a gente bateu palmas, muitas pessoas choravam também. 

Abraçamo-nos e olhamos para o céu, sussurrando:

- “Ángel, Santiago, nunca vos esqueceremos...obrigado por tudo!”

Uma estrela cadente cruzou os céus.

 

Eu e o João sorrimos um para o outro. 

Cúmplices, beijamo-nos finalmente. 

Ouvimos uma enorme ovação de todas as pessoas que ali estavam. 

Elas eram as testemunhas do nosso renascimento.

[Continua]

Quarta-feira, 12 de Junho de 2013

Vírgulas do Destino: Meandros da Vida, Parte 1

Após tanta insistência, decidi-me. No fundo, eu sabia que seria o melhor para mim. Passar uns dias em Portugal. Aproveitar para espairecer a cabeça e ir ao encontro de blogs. Bem preciso de me distrair!


Parti cedo para Portugal. Como vivo no norte de Espanha, meti-me no comboio, rumo ao Porto. O tempo está agradável, melhor do que esperava, felizmente.

Fiquei surpreso com a simpatia das pessoas. Muito prestáveis e dispostas a ajudar, com um sorriso genuíno, quando me viam a olhar para tudo com um ar levemente perdido ou atarantado.

Fiquei encantado! 

Aproveitei a estadia no Porto para visitar as terras vizinhas. Numa dessas viagens, fui parar a uma cidade costeira, com uma longa extensão de praias. As praias eram de areia fina e branca. A água do mar, essa, muito verde e azul. Bastante fria também, para dizer a verdade! Mas era muito bom, pois eu saía dos banhos do mar sempre cheio de energia! Aproveitava esses momentos para dar uma caminhada ou correr, livre como o vento, no areal.


À noite, a zona ribeirinha enchia-se de pessoas, de todas as idades. Claro que a maioria eram pessoas da minha idade, que queriam beber uns copos na companhia dos amigos e namorados/namoradas. Andava eu por ali, quando fui parar a uma praça. Nessa praça, bastante cheia de gente, pois haviam bares e cafés a toda a volta. Andava eu por ali entretido a apreciar o ambiente e as pessoas quando encontrei um cartaz a anunciar que num deles estava a decorrer uma Noite Mística




Curioso, decidi entrar para ver. 


O bar estava apinhado de gente. Quando entrei, arranjei um lugarzito a um canto. Sentei-me. Passado uns momentos, uma funcionária do bar, bastante gira, [que mais tarde vim a saber se tratava da dona], veio ter comigo e aproveitei para lhe perguntar o que se estava a passar. Sorridente, ela respondeu:

- Hoje está a decorrer uma Noite Mística, com a participação de um Tarólogo que costuma fazer sessões aqui no bar. Ele é bastante famoso e popular cá na cidade e nos arredores!

Ri-me e perguntei:

- E ele costuma acertar?

Ela sorriu e disse:

-  É conhecido por nunca falhar nas suas previsões. Mesmo comigo, aqui à tempos disse-me umas coisas que não fizeram grande sentido na altura, mas...quando menos esperava, tudo aconteceu como ele previu! Aliás, foi graças a isso que me tornei dona deste bar... – comentou ela em voz baixa.

Fiquei impressionado! Interessadíssimo, virei-me para ela e disse:

- E será que ele me pode atender? É que já reparei que está cá muita gente, certamente muitas pessoas em fila de espera...

A rapariga sorriu:

- Não prometo nada, mas posso ver...

Eu insisti:

- Ohhhh...pergunte-lhe se me pode receber, eu cá não me importo de aguardar. Venho de Espanha, sabe? Estou cá de passagem... – respondi eu, enquanto ajeitava os cabelos. Sorri e pedi uma bebida.

Ela sorriu e rematou:

- Eu vou perguntar então. Tenho a certeza que ele vai aceitar, mas vou confirmar. Trago a resposta com a sua bebida!

O bar não era muito grande, mas era agradável. Estava decorado com tons quentes, e muitos adereços faziam-me lembrar as mil e uma noites da Arábia. Gostei bastante. Toda a gente parecia bem disposta e feliz. 

Suspirei. 

Também eu gostava de me sentir assim, tão feliz...

- Aqui tem! – era a dona do bar com a bebida e um cartão. – Ele vai recebê-lo.

Assenti com a cabeça.

- Muito obrigado! – respondi com um sorriso.

- Neste cartão está o seu número. Aquela colega [apontou para outra rapariga] vai chamando as pessoas pelo número. Esteja atento ao seu, sim? Alguma coisa, é só chamar!

- Com certeza! Uma vez mais, obrigado!

O tempo foi passando. Enquanto esperava, assisti a um show de dança do ventre. Nunca tinha visto e fiquei mesmo com os olhos em bico! A dançarina era muito sensual! 


Quanto às consultas, algumas pessoas demoravam pouco tempo, outras pareciam demorar uma eternidade. Pelo que me fui apercebendo, ele respondia a duas, três perguntas no máximo por pessoa. Caso contrário, conforme me explicou a Mariana [a dona do bar], “as consultas nunca mais chegariam ao fim, pois há pessoas que adoram fazer perguntas e como dão aquilo que quiserem, por vezes abusam da boa vontade dele...

Já o bar se encontrava quase vazio, quando...

- Número 27! Número 27! – clamava a funcionária à porta do “gabinete”.

- Sou eu! Sou eu! – exclamei, levantando-me.

Dirigi-me ao local e a nova rapariga disse:

-  Ele vai recebê-lo agora! Boa sorte!

- Obrigado! – respondi.

As consultas eram dadas dentro de uma tenda, para proporcionar alguma privacidade aos clientes.

Hesitante, respirei fundo.

Entrei.

[Continua...]
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